José Lutzenberger. Ecologia: do Jardim ao Poder (Coleção Universidade Livre). L&PM Editores, 1985, 10ª edição. Capítulo "O problema do lixo na cidade de Novo Hamburgo/RS - uma proposta de solução".
Fator fundamental para uma catação eficiente é o catador autônomo. Catadores assalariados, mesmo quando trabalham em e esteiras especiais, não são eficientes. Este tipo de trabalho, sendo comumente considerado de baixo nível, é muito mal pago — salário mínimo ou pouco mais — de maneira que a motivação para um trabalho atento e eficiente é mínima. Quando o supervisor vira as costas, o catador reduz a produtividade. Durante anos tentamos, no lixão da Olaria, que é o lixão sul de Porto Alegre, colaborar na instalação de um centro de reciclagem e compostagem de lixo doméstico. Chegamos a tratar 50 ton/dia. Entretanto, a insistência da prefeitura em trabalhar só com catadores assalariados, repetidamente levou ao fracasso do esquema. O catador autônomo trabalha com afinco e insistência, muitas vez não conhece domingo e feriado, produz e ganha bem.
Anos atrás, também em Porto Alegre, partindo de um enfoque equivocado, a prefeitura tentou tirar o catador autônomo dos grandes lixões. Era a época do lixão da Ilha do Pavão, uma das coisas mais absurdas que já se fez neste sentido, e que ainda causa problemas. [...] Os catadores [autônomos], que se pretendia afastar, negavam-se a aceitar empregos de operário em indústrias. Isto não porque fossem vadios, como diziam alguns, muito ao contrário, porque na catação antônoma ganhavam muito mais do que poderiam ganhar como empregados. Devemos acrescentar fator psicológico de capital importância: quem não gosta do sentimento de ser seu próprio patrão, mesmo em trabalho humilde?
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A lição mais importante aprendida nos vinte anos de observação do trabalho em lixões e usinas de reciclagem, no Brasil e no exterior, é de que a melhor maneira de catar — isto para nossas condições, com mão-de-obra disponível e disposta — é a que o catador autônomo sempre preferiu: a catação no chão. O que podemos fazer é disciplinar e otimizar esta catação. Podemos e devemos dar ao catador botas, luvas, trajes adequados e certos instrumentos de trabalho. Devemos dar-lhe também depósitos para armazenamento até o dia de venda dos materiais por ele separados. Devemos dar-lhe (o que quase nunca acontece, porque o catador é por muitos, em sua arrogante ignorância, considerado um ser inferior) condições sanitárias e de conforto, como chuveiros e lavabos, WCs descentes ou mesmo latrinas ordeiras, um galpão para descanso e preparação de refeições e de pernoite.
Neste contexto há que levar em conta outro fator de extrema importância: a organização dos próprios catadores. Nos lixões comuns, como o da Sertório, em Porto Alegre, quando deixados a si, os catadores, por não terem nenhum auxílio, enfrentam dificuldades para catar eficientemente. Parte do material reciclável é logo compactado por tratores pesados. Surge, então, feroz concorrência e, muitas vezes, brigas entre eles, o que reforça a má impressão que, às vezes, o administrador público tem deles. [...]
Por isso, quando recrutarmos os catadores, teremos que ajudá-los desde o início, para que se organizem. Pessoalmente, estou tendo experiência muito satisfatória com um grupo assim, que foi por minha firma organizado em microempresa. Pode-se, também, pensar em cooperativa. Entretanto, esta terá que se manter muito pequena, senão o associado passa a ter, de fato, um status semelhante ao do empregado e morre a motivação.